Carta

  C014  
Eduardo Soares | Rio de Janeiro RJ
Carta é confessionário. Não existe melhor lugar para que razão e coração possam externar suas vitórias, derrotas, seus anseios e temores. Escrever uma carta é conversar em silêncio, avistar o destinatário por dedução e ouvir um diálogo existe somente na imaginação. a cada deslizar da caneta, o remetente remete sua expectativa a uma dimensão acima das nuvens, mais precisamente entre a galáxia e o desconhecido.
 
Fora isso, toda carta é uma pausa no tempo. Enquanto o papel é preenchido por letras, pontos e confissões, existe alguém que dedica minutos (ou quem sabe horas) para colocar para fora segredos previsíveis, declarações surpreendentes, novidades antigas e anseios crescentes. Trocando em miúdos: qualquer cada linha serve como um varal a expor pequenas fotografias das possibilidades invisíveis.

Outro dia, tentando organizar minhas bagunças, encontrei uma linda carta-confissão, a que aparece na foto. Lembro-me do dia em que fomos apresentados. prazer, carta; prazer, Eduardo. Era véspera de Natal. Pessoas agitadas atravessavam a rua abarrotadas de sacolas de mercado. A ceia dessa gente teve fartura de comida mas não sei se teve fartura de sentimento. Naquele momento, dentro de um carro, meu coração acelerava a cada linha lida. Eram tantos sentimentos camuflados naquela caligrafia bonita que meus olhos ficaram inundados até o começo da noite. ali, a remetente teve a sensibilidade de falar sobre si, mim e nós. Aí você terá o direito de deduzir que destinatário e remetente só se viam de vez em nunca, certo? Que nada. Ela aturava minha chatice com frequência e assim o fez por alguns meses. Tais momentos foram compilados na já citada carta molhada pelo choro bonito desse indivíduo de semblante embrutecido.

Anos depois, reencontrei esse pedaço de papel que também é um pedaço de um romance que ficou para trás. Li duas vezes. Fiquei emocionado duas vezes. Toda carta nasce com a vocação para ser guardiã de um momento (bom ou não) especial. Algumas morrem no lixo. Outras têm algum luxo e envelhecem na gaveta. Com certeza, as cartas que recebi fazem parte do segundo destino.

Não posso chamar de infeliz o destinatário que deu um destino otário aos pedaços rabiscados do tempo. Cada um dá a importância ou desimportância aos fatos de acordo com aquilo que seu coração pode suportar. Eu guardo todas as cartas. Eu guardo todos os pedaços meus que não me pertencem mais.

Assim como uma página em branco que nunca mais é mesma quando se vê invadida por letras atrevidas, meu coração não fica igual depois de ler ou reler uma declaração escrita. Percebo o quanto fui importante para alguém. Observo o quanto fiz sofrer, chorar, sonhar, ruir, amar, crescer.
 
Acredito que sou feito dessas cartas: os amores que deixei, os dias onde morri, os corações onde morei, as tempestades onde nasci.
 
A cada "sinto sua falta", "quando você volta?", "não me bagunce", "estou magoada", "a vida se ajeita", "beijos com saudade", rememoro meus erros e acertos na gangorra dos anos assim como meus acenos de até breve e os beijos de até nunca entre certezas e enganos.

As cartas revelam os inúmeros Eduardos que estão aqui dentro. Uns foram rasurados, outros apagados mas alguns ainda continuam a escrever nas páginas da minha biografia e das biografias de quem me dá caneta, papel em branco, liberdade e inspirações.
 
Havemos de continuar então com as cartas escritas e, quem sabe, recebidas.
 

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