Um bom pai ruim

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Jonas Leite | Feliz RS
Na ânsia de ser um bom pai, trabalhava trocentas horas por dia. Tinha que ter um carro mais confortável e mais seguro, com quarenta e sete air bags. Também era aconselhável aumentar a cobertura do plano de saúde e a área coberta do pátio. E sonhava com uma cobertura num bairro melhor.

Quando ele saía, a filha ainda estava dormindo e estava escuro lá fora. Quando ele chegava, a filha já estava dormindo, pois estava escuro lá fora. Fazia isso prevendo os gastos futuros e preocupado com a carestia do açougue.

Saramago em Concerto

  C103  
Ovídio Santiago | Odivelas PT
Na última passagem de ano, desloquei-me com o grupo familiar habitual ao espaço fronteiro à Torre de Belém, onde a autarquia prometia música e fogo de artifício. A surpresa foi muito agradável. Até à meia-noite, atuou um conjunto muito curioso: formado por três violas, bateria, piano e três metais, só tocam músicas dos Beatles, copiam-nos em tudo, até nas roupas. Dão pelo nome de “Get Back Beatles” e são brasileiros. O esforço rende resultados: abstraindo-nos um pouco, quase acreditamos que estamos a ver e a ouvir os autênticos, quarenta anos depois, em Lisboa, todos vivos e jovens.

Admirei-os por terem conseguido arranjar um nicho de mercado original e rendoso.

Este revivalismo vem acontecendo com outras formulações. Tomei conhecimento que, num clube privado, um grupo fazia a passagem de ano só com a banda sonora de uma novela brasileira. Uma passagem de ano temática.

Sem Sinal

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Marcelo Silva | Cajamar SP
Durante meses, eu e um amigo conversávamos através de um aplicativo, esse de mensagens multiplataforma que permite trocar informações. E sempre o cobrava por um encontro pessoal. Por mais que os avanços tecnológicos avançaram, eu acredito nos “olhos nos olhos”, porque revela o ser humano no seu jeito de falar, nos gestos, no toque, na risada, no cheiro. Elementos que proporcionam uma magnitude no relacionamento.

Tomei iniciativa e fui visitá-lo em pleno dia vinte de julho, Dia do Amigo. Ficamos durante vinte minutos, falando da vida , como não fazíamos há tempo. Mas o celular rompeu nosso assunto com um som de notificação, sinalizando uma mensagem de texto.

A crônica tem que sair

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Conselheiro Acácio | Rio de Janeiro RJ
Tenho lido que certos cronistas arrepiaram carreira por não terem crônica pronta na data aprazada. Vão passando os dias e ideias aceitáveis não vêm. E editores ficam indóceis e os cronistas se afligem. Mestre Drummond de Andrade, diante deste impasse para escrito e com data marcada, escreveu o poema da pedra no caminho. Tantas interpretações teve a referida pedra, algumas metafísicas e esdrúxulas, que o poeta veio público e irritado avisou que a pedra no caminho, a dele, era a falta de assunto para determinado escrito, cujo mote não lhe vinha.

Conexões

  C084  
Trinta e Seis | São Caetano do Sul SP
O tempo não existe. É uma ilusão, uma necessidade para nossa evolução.

Evolução tem a ver com revolução. É preciso revolver e remexer a falsa estabilidade do antigo para que surja a mudança.

Mudança é a única coisa estável no Universo. Quem espera acomodar-se eternamente em sua imutabilidade, será arrastado pelas transformações, não terá sossego.

Sossego é aquela coisa que a gente vive querendo, mas nunca alcança, porque sempre coloca outras coisas na frente. Muito daquilo que queremos não é necessário.

Água de Coco

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Natylla Lucy | Uberaba MG
Ele observara a mulher se aproximando, que com ternura sentou-se ao seu lado. Trajava vestes simples que ficavam muitos elegantes em suas curvas finas. Envergonhado, o homem tirou o olhar da moça e fixou sua visão na atendente daquela barraquinha de água de coco.

Com elegância, tentou inibir movimentos que não parecessem deselegantes perto de tal mulher, passando assim uma impressão de bom homem.

A moça sequer o reparava. Parecia mais ocupar sua atenção com os preços destacados no fundo da barraca. Então, logo viera aquele perfume de outro mundo atiçar os hormônios do homem fazendo o mesmo sentir-se curioso.

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